sexta-feira, 11 de maio de 2012

Três lágrimas



Ele nunca beija na hora de ir embora. Abre o portão e apenas encosta os lábios, volta a ser distante, da porta pra fora nós não existimos. Eu já não espero mais, viro as costas e sigo sem olhar pra trás.
Volto pra casa passando música por música no rádio, deixando tocar as mais tristes, até chegar em Sonnet do The Verve.   
Eyes open wide. Looking at the heavens with a tear in my eye. Yes, there's love if you want it.”
Não é só o que temos que está errado. É a minha vida toda. Volto pensando que não tem mais jeito. Que queria morrer e nem coragem pra isso eu tenho.
Cheguei lá feliz, depois de passar o dia ansiosa, esperando que algo bom acontecesse. Ele me faz bem, quando estamos juntos me sinto menos vazia. Mesmo assim, em um momento precoce da noite eu quis ir correndo para a minha casa. Sábado à noite, a maior lua do ano, minhas mãos suaram, o desespero pulsou dentro de mim e eu quis a minha cama.
Eu falei que não estava bem, ele achou que tinha feito algo errado, que era por culpa dele, mas não. Eu só não sei mais viver. Me abraçou forte me protegendo do mundo e a crise de querer ir embora foi controlada.
 Fiquei olhando nossos pés, pernas, braços, mãos. A cabeça dele no meu peito, tudo parecia ser um corpo só. Pensei em como essa imagem seria a melhor fotografia dos últimos tempos. E ali deixei três lágrimas caírem em silêncio enquanto ele dormia nos meus braços. Cuidei pra que elas não tocassem nele, quis protegê-lo da minha dor. Dor de ver um momento tão lindo acontecendo ali e saber que não passa de ilusão, saber que em segundos não existiria mais nada além da lembrança, dor de sentir medo da vida, de não saber mais viver com esse desespero dentro de mim.
 Não sei se consigo seguir vivendo. Eu não me sinto bem nesse mundo onde se ama de menos e se cobra demais, onde todos sabem o que eu deveria fazer e ninguém arranca de mim esse mal, onde as pessoas sempre se magoam. Eu tenho amor de sobra, sonho demais com uma vida que não existe, vejo beleza onde os outros não veem e, sim, sou louca. Louca do bem, como ele diz.

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